ANÁLISE DA OBRA MISSA DO GALO DE MACHADO DE ASSIS

Professora: Maria
Picanço Batista

Disciplina: Texto e
Discurso

Acadêmicos: Dério
Maciel, Joana da Paz, Oziel Gomes, Waldery Pantoja

Data: 04 / 05 / 2010

 

 

Cada qual sabe amar a seu
modo; o modo; pouco importa; o essencial é que saiba amar.

 

 

Machado de Assis

 

APRESENTAÇÃO

 

Biografia sucinta de Machado de
Assis e análise literária do conto Missa
do Galo,
 que foi publicado pela
primeira vez em 1893.

 

BIOGRAFIA

 

Joaquim Maria Machado de Assis
foi poeta, cronista, contista, ensaísta, contador de histórias, dramaturgo,
jornalista político, repórter, polemista, novelista, romancista, epistológrafo
e crítico de literatura e de teatro.

Nasceu em 21 de Junho de 1839 na
cidade do Rio de Janeiro. Filho de um operário mestiço, Francisco José de
Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis. Perdeu a sua mãe muito cedo e
foi criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedicou ao menino e
o matriculou na escola pública. Mesmo sem ter acesso a cursos regulares,
empenhou-se em aprender. Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora
francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras
lições de Francês.
            Aos 16 anos, publicou o seu
primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista Marmota
Fluminense. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo
publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo.
Aos 17 anos, conseguiu emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional,
e começou a escrever durante o tempo livre. Conheceu o então diretor do órgão,
Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se
tornou seu protetor.

Passados não muitos anos,em 1860,
a convite de Quintino Bocaiúva passou a fazer parte da redação do jornal Diário
do Rio de Janeiro. Além desse, escrevia também para a revista O Espelho, A
Semana Ilustrada e Jornal das Famílias. Mas o seu primeiro livro só foi
impresso em 1861, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, onde
aparece como tradutor.
            Em 1867, foi nomeado ajudante
do diretor de publicação do Diário Oficial e em 12 de novembro de 1869, casou-se
com Carolina Augusta Xavier de Novais. O escritor era um típico homem de letras
brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e por
um casamento feliz que durou 35 anos. D. Carolina, mulher culta, apresentou
Machado aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa.

Talvez por essa razão, tornou-se
um grande amigo do escritor José Veríssimo, que dirigia a Revista Brasileira,
com quem teve a ideia de fundar a Academia Brasileira de Letras. Machado desde
o princípio apoiou a ideia e compareceu às reuniões preparatórias e, no dia 28
de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da
instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29
de setembro de 1908. Sua oração fúnebre foi proferida pelo acadêmico Rui
Barbosa.

Diziam os críticos que Machado
era "urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, ignorou
questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura.
Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio,
como se não houvesse outro lugar.

Sua obra divide-se em duas fases,
uma Romântica e outra Parnasiana, quando desenvolveu inconfundível estilo
desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é
preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da
desconfiança na razão, fizeram com que se afastasse de seus contemporâneos.

 

RESUMO

 

Segundo Machado de
Assis o conto Missa do Galo tem foco narrativo em primeira pessoa, o narrador
também é personagem. È um conto retrospectivo, pois o Sr. Nogueira já adulto
relatou um acontecimento do passado. O enredo se desenvolveu quando Sr.
Nogueira tinha dezessete anos e morava na casa do escrivão Meneses, para
estudar. Naquele ano, prolongou sua estada na Corte (Rio de Janeiro) a fim de
assistir à Missa do Galo, apesar das férias já terem iniciado. O escrivão
Meneses, mesmo casado com dona Conceição, uma santa, segundo o narrador,
mantinha um caso extraconjugal com uma mulher separada do marido. Na casa todos
sabiam inclusive sua esposa. Uma vez por semana, Meneses encontrava-se com a
amante. À noite de Natal foi uma dessas ocasiões. O adultério declarado do
marido de Conceição propiciava condições para que ela própria desejasse também
prevaricar.

Assim aconteceu o
encontro premeditado por ela, ao que tudo indica, com o jovem Nogueira,
enquanto este, em casa, esperava a hora da Missa do Galo. Ele por ingenuidade e
inexperiência, não chegou a captar exatamente as intenções da pacata, mas
traída Conceição. Ela, por sua roupa, seus gestos, suas atitudes, seu andar,
suas frases ambíguas parecia disposta a seduzir o estudante ingênuo. No
entanto, nenhum envolvimento explícito aconteceu com eles. Nogueira conta no
final que, no ano seguinte, o escrivão Meneses morreu de apoplexia. Quanto à
Conceição, casou-se novamente logo depois com o escrevente juramentado do
marido.

 

Percebe-se
que, desde a frase inicial há existência de ambigüidades: "Nunca pude
entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu
dezessete, ela trinta." Pode-se entender, se nem mesmo o narrador entende?
É a marca  e  a técnica que Machado usa em sua narrativa.
Tem-se que tentar elucidar o mistério da alma humana.

 

ENREDO

Missa do galo é um conto de
Machado de Assis, que não nos traz revelações surpreendentes, porém, como é
próprio do autor, está carregado de reflexões do fundo da alma mostrando-nos as
várias faces do comportamento humano. È um traço doce e melancólico sobre a
relação homem mulher. Ele faz questão de mostrar o cenário e através dele nos
envolve. Ele não faz questão de descrever as suas personagens e é uma
característica do Naturalismo. Ele prefere descrever o lado psicológico delas e
isso faz uma ruptura entre o que é real e o que é psicológico. È considerado
moderno por justamente criar essa atmosfera de um flagrante do nosso dia-a-dia.

ESTRUTURA

Toda a trama acontece na sala da frente, de uma
casa mal assombrada, localizada na Rua do Senado, Rio de Janeiro. Havia uma
mesa no centro da sala, algumas cadeiras, cortina na janela, um canapé e um
espelho. Nas paredes, dois quadros completavam aquela atmosfera de cumplicidade
entre Conceição e Nogueira.

O conto mostra o encontro e o tímido diálogo entre
um jovem e uma senhora casada numa noite de Natal. Praticamente nada acontece
entre os dois. Mas Machado parece dizer que, onde nada acontece, tudo pode  acontecer e para que o percebamos, é preciso
ler nas entrelinhas as marcas do desejo não explícito.

           
A complicação começa quando Conceição entra na sala onde Nogueira estava
lendo um romance, fazendo hora e esperando pela meia-noite. O enredo segue
descrevendo o inesperado encontro, numa noite de natal, entre um rapaz com
dezesseis anos e uma mulher  madura de
trinta, que se mostrava camarada e compreensiva. N
ogueira não acreditou na
explicação e verificou que os olhos de Conceição "Não eram de pessoa que
acabasse de dormir. Pareciam não ter ainda pegado sono".

           
O clímax da narrativa ocorre quando Conceição fica inquieta, andando de
um lado para o outro e, quando se senta, cruza as pernas de uma maneira
sensual, despertando  a libido de
Nogueira, que via em Conceição uma mulher “linda, lindíssima (…)”.

O desfecho, o encanto daquele momento
termina quando o vizinho bate na janela, chamando Nogueira à Missa do Galo.
Daquele dia em diante, nunca mais Nogueira conversou ou escreveu para
Conceição. Restou-lhe somente a imagem do balanço do corpo de Conceição,
enfiando-se pelo corredor, pisando mansinho, e sumindo de sua vida, deixando na
lembrança de Nogueira, a incompreensão daquela “conversação” que teve com uma
senhora, há muitos anos atrás.

O
próprio narrador não consegue entender o que aconteceu naquela noite :"Há impressões dessa noite que me
aparecem truncadas ou confusas"
, chegando até mesmo a mudar seus
relatos  a respeito de Conceição, que no
início  era somente simpática e se
transforma em uma linda, belíssima mulher. Começamos  a mudar nossas formas de  enxergar também, somos conduzidos, levados
pela narrativa. Seduzindo-nos sutilmente até chegar ao  clímax seco, característica de  Machado de Assis.  As personagens  se revelam e a  sessão de análise chega ao  fim.  É
o chamado que vem de fora : "Missa
do Galo! – repetiram de fora batendo"
. É o momento do  nosso despertar,  e o galo canta.

LINGUAGEM

Machado usa um vocabulário e
algumas construções sintáticas que às vezes parecem  antigas, 
mas  é a pura modernidade
estilística.

FIGURAS
PRESENTES NO TEXTO

O autor nos mostra um lado pessimista e irônico a respeito do
amor: “Mais baixo, a mamãe pode acordar.” “E não saía daquela posição, que me
enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras.(…). Afinal cansou; trocou
de atitude e de lugar.Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé.
Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só tempo que ela
gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo…” “O quê?
Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.”

Percebe-se  também a presença da metáfora: "é a
mesma missa da roça e que todas as missas se parecem.",“…a impressão que
tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia
contá-las do meu lugar.” 

FOCO
NARRATIVO

Conto narrado em
primeira pessoa: “
eu repeti-lhe o que ela sabia, isto
é, que nunca ouvira missa do galo na Corte e não queria perdê-la.” E uma
conversa  inesperada vai acontecendo misturando-se à
sensualidade, que é marca  nos contos
Machadianos.

 

ESTILO LITERÁRIO

       Naturalista, pois os romances naturalistas se destacam pela abordagem
extremamente aberta do sexo e pelo uso da linguagem falada. O resultado é um
diálogo vivo e extraordinariamente verdadeiro, que na época foi considerado até
chocante de tão inovador. Ao ler uma obra naturalista, tem-se a impressão de
estar lendo uma obra contemporânea, que acabou de ser escrita.

TEMPO

 

O tempo enleia e
passa por dimensões por assim dizer elásticas, pois temos a sensação de mergulharmos
naqueles momentos eternos e as horas não passam e nem temos a vontade de deixá-las
passar, pois nosso sentimento, nosso lado psicológico foi afetado, ficamos
hipnotizados até  o desfecho.

 

ANÁLISE DAS PERSONAGENS

 

D.
Conceição é a personagem que dá espaço à esta viagem ao  psique humano. O narrador, seu Nogueira –
naquela ocasião com seus 17 anos de idade, 
é um personagem que  participa da
história e dá pistas ao leitor sobre a noite de Natal que tanto o intrigou. D.
Conceição é uma personagem que vai crescendo ao longo da narrativa e torna-se
uma mulher envolvente, sedutora. O jovem cheio de vigor vai percebendo D.
Conceição e nos retrata-a.

As feições de Conceição, não são reveladas, mas
deixa pistas para que o leitor observe seus movimentos sutis, como descreve em
certos trechos: “De vez em quanto passava a língua pelos beiços, para
umedecê-los. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles
pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de
mim os grandes olhos espertos”. Em outra cena, a sensualidade de Conceição é
latente quando o narrador observa que as mangas do roupão branco, que Conceição
usava, não estavam abotoados e deixava metade dos braços aos olhos de Nogueira.

Além do jovem Nogueira e Dona Conceição, outras
personagens são citadas durante a narrativa; Dona Inácia, mãe de Conceição e
duas escravas. Há ainda um vizinho, o qual era esperado pelo narrador, para
juntos, irem à Missa do Galo.

ESPAÇO

Descrevendo o perfil físico
de Conceição, o narrador, através de seu olhar, abre as possibilidades de
visualização de cenas e de leitura ao leitor, que vai desvendando, analisando a
personagem principal, o ambiente, as situações, como se estivesse em um
consultório de psicanálise. Tudo é elaborado para que aquele que lê não tenha
pressa de encontrar o desfecho. A sala pouco iluminada, a conversa entre
Nogueira e Conceição meio interrompida pelos silêncios que se formavam é o
espaço adequado para que se reconstrua, pouco a pouco, o cenário realizado pela
narrativa.

CONVERSAS ENTRE AS PERSONAGENS

A narrativa
mostra a realidade social da época e o autor deixa claro quando fala da
escravidão que é citada  pelo narrador
personagem: “A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas
escravas.” E as usa como figura de linguagem para mostrar a escravidão da
mulher, submissas aos maridos, pois D. Conceição mesmo sendo traída pelo marido
permanecia  passiva aceita a “outra” que
era tida pela sociedade como mulher 
avançada: “…mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando
que era muito direito.” 


segundas intenções nas ações de D. Conceição. Percebe-se que se sente
perturbada e vai até a sala: “Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio
acordar-me da leitura.” “Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da
alcova.” “Tinha um ar de visão romântica, não disparatava com meu livro de
aventuras.”

Nogueira
também tem segundas intenções em suas palavras "Já disse que ela era boa, muito boa" usa o advérbio
“boa” com dois significados diferentes.

As
mulheres daquela época liam romances superficiais como é o caso de A moreninha,
citado na obra, em que a mulher era apenas uma “sinhazinha”, dominada pelo pai.

A
narrativa segue e naquela noite de Natal, a clima que envolve as personagens é
sedutora e misteriosa.

“São
olhares que se fixam" “… perto
ficavam nossas caras" "…sem desviar de mim os grandes olhos
espertos gestos
, é uma aproximação do outro, são as partes do corpo que
se mostram sutilmente " “…e eu
vi-lhe metade dos braços muito claros, e menos magros…"
é o toque
" “… pôs as mãos no meu
ombro…”
, são as sensações e percepções que se fazem sentir “ “… como se tivesse um arrepio de
frio…"
. Enfim, nada é revelado, os vazios vão se formando e mais
uma vez o leitor participa da história, preenche os vazios  ou não: tudo dependerá de seu repertório, por
isso é uma narrativa aberta.

Existem momentos em que parece que tudo irá ser revelado, mas
não consegue-se perceber nitidamente o que acontece, pois o conto passa-se no
interior da imaginação do leitor. E o interior do ser humano é inesperado.

 

VOCABULÁRIO

 

Ajustado
com – combinado com

A
casa dormia – fig. na casa as pessoas dormiam

Riam
à socapa – riam disfarçando, disfarçadamente

Comborça
– concubina, amante de homem casado

Maometana
– relativo a Maomé ou à sua religião

Assomar
à porta – aparecer, surgir à porta

Canapé
– espécie de sofá com estrutura de madeira visível

Espaldar
– costa da cadeira

Desalinho
– sair da linha

Permeio
– no meio

Epistológrafoautor de
epístolas, pessoa que escreve cartas

 

REFERÊNCIAS

 

FERNANDES, Francisco, LUFT,
Celso Pedro, GUIMARÃES, F.
Marques. Dicionário brasileiro
Globo.
19a Ed., São Paulo, Globo, 1991.  

FERREIRA,
Buarque
de Holanda. Mini Aurélio. Informática Positivo.

LITERATURA
BRASILEIRA.
Textos
literários em meio eletrônico
Missa do Galo de Machado de Assis. Obra
Completa, de Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Disponível em: http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/missa.html Acesso:
19/04/2010.

MOISÉS, Massaud.
A análise literária, S.
Paulo, Cultrix; 1969; 15a ad. 2005.

TEIXEIRA, E. As três metodologias: acadêmica, da ciência e da pesquisa. 3 ed. Petrópolis:
Vozes, 2006.
                                    

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Sobre Da Paz

Tradutora formada no Curso Bacharelado em Letras Tradutor Francês/Português pelo Instituto de Ensino Superior do Amapá - IESAP Licenciatura Plena em Letras na Universidade Vale do Acaraú - UVA / AMAPÁ. Signo - áries Horóscopo chinês - Galo Meu aniversário - 27 de março.
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