Segunda Fase do Modernismo em Carlos Drummond de Andrade em A Flor e a Náusea

Professor: Francesco Marino

Disciplina: Literatura Brasileira III

Acadêmicas: Delta Brito, Edna Bueno, Francys Tavares, Joana da Paz

Data: 21 / 04 / 2008

 

“Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o  que ele deseja ouvir.  Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.  É com confiança no que diz.”                                                    

                                

                                                           Carlos Drummond de Andrade

 

 

Segunda Fase do Modernismo em Carlos Drummond de Andrade em  A Flor e a Náusea

 

Introdução

 

            Entende-se a Segunda Fase do Modernismo de 1930 a 1945, sabe-se que houve além do aproveitamento das conquistas da Primeira Fase. Houve maior aprofundamento das idéias e, maior preocupação sócio – político – existencial que tomou conta da Literatura no Brasil.

            Neste trabalho daremos ênfase ao brasileiro, mineiro, jornalista, poeta, ensaísta e romancista Carlos Drummond de Andrade em sua obra “ A Flor e a Náusea”, descobriremos a dimensão da personalidade criadora do autor pertencente à segunda fase do Modernismo, Carlos Drummond de Andrade, apresentando sua biografia, obras e estilo. Desvendamento da vida literária desse poeta "gauche".

 

Contexto Histórico

Como já vimos o intervalo entre as duas Grandes Guerras Mundiais, no pré-modernismo, mais precisamente no período da Semana de Arte Moderna, foi tumultuado. Além da tentativa de restauração no plano sócio-político-econômico, o mundo teve de amargar ainda crises decorrentes dos tratados de paz que puseram fim ao primeiro conflito. Crises de ordem nacional e internacional se acumulavam, e, na Literatura não foi diferente.

Em 1930, Júlio Prestes, candidato do Partido Republicano Paulista (PRP) é eleito presidente da República com posse prevista para o ano seguinte. O resultado da eleição foi bastante desequilibrado, visto que seu oponente Getúlio Vargas, obteve apoio expressivo, sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais. Acontece então a Revolução de 30 e Prestes é deposto, enquanto Getúlio assume o poder.

 De 1937 a 1945 Vargas aborta o processo democrático, dando um golpe de estado e instaura a ditadura liderada é claro, por ele, que o manteve no poder por oito anos.

 A insatisfação era notória entre os países considerados derrotados na I Guerra. O Tratado de Versalhes proibia a Alemanha de fabricar armas. No entanto, a Alemanha contraria o tratado e aumenta seu poderio bélico.

Em 1933 Adolf Hitler chega ao poder na Alemanha e no ano seguinte se auto-intitula Führer (líder). Proclama a superioridade da “raça” ariana e inicia a perseguição aos judeus, deficientes físicos, homossexuais, ciganos e negros. E em 1938, Hitler abandona a Liga das Nações, invade a Polônia dando início à II Guerra Mundial.

Na poesia da Geração de 30 houve a consolidação das liberdades formais, conquistada pela geração anterior que, protagonizou uma revolução estética permitiram o cultivo tanto dos versos livres e brancos como o das formas tradicionais.

            Quanto aos temas, observa-se uma grande preocupação social em decorrência dos conflitos políticos que envolvia o mundo e a eclosão da II Guerra Mundial. A incerteza, o medo, a sensação de abismo toma conta da produção de 30, e a tendência à espiritualidade, surgindo assim uma poesia intimista sem ser antiética, fato compreensível dado o momento histórico. Neste momento a poesia religiosa é cultivada. Nessa fase, os recursos simbolistas são mesclados às técnicas propostas pela geração de 22.

Biografia

            Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, em 31 de outubro de 1902, Minas Gerais e faleceu em 17 de agosto de 1987 na cidade do Rio de Janeiro – RJ. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade natal, em Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Excelente funcionário passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.

O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.

Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha, sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo. Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e, sobretudo em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre.

Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Drummond foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa.                                                                               

Em mão contrária traduziu os seguintes autores estrangeiros: Balzac (Les Paysans, 1845; Os camponeses), Choderlos de Laclos (Les Liaisons dangereuses, 1782; As relações perigosas), Marcel Proust (La Fugitive, 1925; A fugitiva), García Lorca (Doña Rosita, la soltera o el lenguaje de las flores, 1935; Dona Rosita, a solteira), François Mauriac (Thérèse Desqueyroux, 1927; Uma gota de veneno) e Molière (Les Fourberies de Scapin, 1677; Artimanhas de Scapino).

Características de suas obras

– O Indivíduo: "um eu todo retorcido". o indivíduo na poesia de Drummond é complicado,                    torturado, estilhaçado.

– Terra Natal: a relação com o lugar de origem, que o indivíduo abandona.

– A Família: O indivíduo interroga, sem alegria e sem sentimentalismo, a estranha realidade familiar, a família que existe nele próprio.

– Os Amigos: "cantar de amigos", (título que parafraseia com as Cantigas de Amigo). Homenagens a figuras que o poeta admira, próximas ou distantes, de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, de Machado de Assis a Charles Chaplin.

  Choque Social. O espaço social onde se expressa o indivíduo e as suas limitações face aos outros.

– O Amor: Nada romântico ou sentimental, o amor em Drummond é uma amarga forma de conhecimento dos outros e de si próprio.

– A Poesia: O fazer poético aparece como reflexão ao longo da sua poesia.

– Exercícios lúdicos, ou poemas-piada. Jogos com palavras, por vezes de aparente inocência naïf.

– A Existência: a questão de estar-no-mundo…

– Predomínio da individualidade.

– Neologismo raro de gerar problemas de decodificação, em Os nomes mágicos (de A falta que ama) há esse tipo de criação:

“sêdula             syfra            cynal 

çomma 

bredda              kreza            kressynk             decred

                                                                       ryokred 

fydex                fynywest      ynwesko

horwendys 

hortek 

del-tek 

há-les 

halley áurea foquete em órbita 180 

210 240 360 dias-cruzeiro 

melódico deságio & borborigmo de presságio 

quando seremos ricos, morena? 

no fim de S 5 anos-kofybrasa 

se não perdemos até o ouro das cáries 

e ainda restar memória de riqueza

 no ar nohrlar”

 

Obras

Poesia: Alguma poesia (19300; Brejo das almas (1934); Sentimento do mundo (1940); Poesias (1942); A rosa do povo (1945); Viola de bolso (1952); Fazendeiro do ar e poesia até agora (1953); Viola de bolso novamente encordoada (1955); Poemas (1959); A vida passada a limpo (1959); Lição de coisas (1962); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); Menino antigo (1973); As impurezas do branco (1973); Discurso de primavera e algumas sombras (1978); A paixão medida (1980); Corpo (1984).

Prosa: Confissões de Minas (1944); Contos de aprendiz (1951); Passeios na ilha (1952); Fala, amendoeira (1957); A bolsa e a vida (1962); Cadeira de balanço (1966); Caminhos de João Brandão (1970); O poder ultrajovem (1972); De notícias & não-notícias faz-se a crônica (1974); 70 historinhas (1978); Boca de luar (1984).

 

Texto Poema
“A Flor e a Náusea”

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias, espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

 

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

 

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a  pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

 

Vomitar este tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam pra casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

 

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.

 

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.

 

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

 

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

 

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

 

Análise do texto poema “A Flor e a Náusea

De certo modo representando a própria evolução da poesia moderna brasileira, a obra poética de Carlos Drummond de Andrade percorreu várias fases ou maneiras. Não sendo possível exemplificá-las todas, faremos uma breve análise do poema “A Flor e Náusea”.

            Deu para perceber que o poeta se expressa na primeira pessoa. A linguagem poética de Drummond faz expressar através de vocábulos simples sem presunções léxico-sintáticos, aproximando-se do discurso do cotidiano, o que aumenta as possibilidades receptivas do leitor, que ao invés de tentar decifrar códigos estilísticos, simplesmente recebe a mensagem carregada de emoções. Assim, o que importa não é o significante, mas o significado. É o que podemos perceber em “A Flor e a Náusea”, que traduz a criação do poeta ante a dor coletiva e a miséria do mundo moderno, com seu mecanismo, seu materialismo e a falta de humanidade. Para o poeta transmitir a sua emoção, o que é questão vital, ele opta pela palavra, que deve ser estruturada sobre um plano formal, que assim se dispõe: o poema compõe-se de nove estrofes, de números variados de versos. A primeira, segunda e sexta estrofes são quintilhas, isto é, estrofes de cinco versos. A terceira, oitava e nona estrofes são quadras. A quarta, e quinta são formadas de sete versos. E a sétima estrofe é sextilha. O poema termina com um verso solto: "É feia, mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio."
            Os versos têm número variado de sílabas e são versos brancos, sem rimas. Drummond empregou neste poema os versos livres, característicos do movimento modernista. Comportamento humano tão passível de guerras, de ambições que acabam por levá-lo a uma ausência de valores. Assim é que o autor exterioriza o que sente, sai de dentro de si e canta as mazelas de um tempo, porém não um mundo que o rodeia, mas um mundo do qual faz parte, apesar de toda insatisfação e desencanto que lhe causa, podemos observar na primeira estrofe do poema.
            O poeta vai de "branco", pela rua "cinzenta". Temos aqui um indicativo de ausência de cor, que sugere um vazio como se o poeta não reagisse, observasse a tudo impassível, como notamos no primeiro verso: "Preso à minha classe e algumas roupas". Ele está preso a que? À situações sócio-políticas ou à impotência de criar alguma coisa que pudesse ser um grito de alerta. No terceiro verso continua a interrogação. Deve continuar agindo dessa forma até não mais suportar, buscando desculpas para isso "posso, sem armas, revoltar-me?", ou deve vomitar tudo o que faz mal? Basicamente, a visão que oferece, de si próprio e da realidade brasileira e universal que filtra, é ainda de um profundo ceticismo.

Conclusão

            Ao fazermos este trabalho sobre Carlos Drummond de Andrade, percebemos o quão de sua importância para nós brasileiros e para o mundo, com suas variantes poéticas e seu rico reservatório de neologismos.

            Quando se diz que Drummond foi o primeiro grande poeta a se afirmar depois das estréias modernistas, não se está querendo dizer que Drummond seja um modernista.

            De fato herda a liberdade lingüística, o verso livre, o metro livre, as temáticas cotidianas. Variantes da palavra gauche – como esquerdo, torto, canhestro – aparecem por toda a obra de Drummond, revelando sempre a oposição eu-lírico X realidade externa, que se resolverá de diferentes maneiras.

           Concluímos que este, foi de grande importância para o nosso aprendizado, em conhecermos mais sobre “O criador de palavras” Carlos Drummond de Andrade, com isso, melhorarmos nossos conhecimentos e esperamos poder contribuir com os demais.

 

Referências

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. 5ª ed. ver. e atual. São Paulo. Globo, 1999.

MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. S. Paulo, Cultrix, 1971. 25ª ed. 2005.

Revista Língua portuguesa. Ano II. Número 23. 2007. editora segmento.

www.revistalingua.com.br

Fonte:  www.culturabrasil.org/cda.htm

Fonte: www.geocities.com/michelato/carlos/analise/analise

 

Fonte: wikipedia.org/wiki/Carlos_Drummond_de_Andrade

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Sobre Da Paz

Tradutora formada no Curso Bacharelado em Letras Tradutor Francês/Português pelo Instituto de Ensino Superior do Amapá - IESAP Licenciatura Plena em Letras na Universidade Vale do Acaraú - UVA / AMAPÁ. Signo - áries Horóscopo chinês - Galo Meu aniversário - 27 de março.
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